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A primeira sede da Faculdade de Direito: a “Alfaiataria do Didico”

Por Rodrigo A. Sartoti – Professor de Direito, Advogado e Membro Efetivo do IASC.

A convite do nosso Presidente, Dr. Gilberto Lopes Teixeira, inicio hoje uma coluna aqui no site do IASC com o objetivo de compartilhar arquivos e fatos históricos da Faculdade de Direito da UFSC e, desta forma, contribuir para o resgate da História do Pensamento Jurídico de Santa Catarina.

Esses arquivos históricos são frutos do meu Mestrado em Direito, no qual fiz um trabalho de micro-história do direito e pesquisei um período específico da História da Faculdade de Direito da UFSC, sob orientação da Profa. Dra. Jeanine Nicolazzi Philippi. Acabei reunindo centenas de arquivos coletados no Arquivo Nacional, no Arquivo Público de SC, na Hemeroteca Catarinense e no Arquivo Central da UFSC. São documentos, jornais, revistas, fotos e entrevistas que reconstroem os quase 100 anos da Faculdade de Direito da UFSC, o mais antigo Curso de Direito de Santa Catarina.

O período específico sobre o qual escrevi minha dissertação de Mestrado vai de 1964 a 1968 e discute a repercussão do golpe de estado de 1964 e da ditadura militar na Faculdade de Direito da UFSC. A dissertação foi aprovada com nota 10 e conceito “distinção e louvor”, podendo ser consultada no Repositório Institucional da UFSC[1]. Após a defesa pública da dissertação, publiquei o texto em formato de livro pela Editora Insular, com o título “Juristas e ditadura: repressão e resistência na Faculdade de Direito da UFSC”[2].

Desde o fim do meu Mestrado, todos esses arquivos estão armazenados num HD e sem muita utilidade. Diante disso, resolvi criar uma página no Instagram[3] e no Facebook[4] – @memoriadireitoufsc –  para compartilhar esses arquivos e fatos históricos da nossa Faculdade. Os arquivos e textos postados nessas redes sociais serão, também. compartilhados aqui.

Vamos lá!?

A Faculdade de Direito de Santa Catarina – hoje Curso de Direito da UFSC –, desde sua fundação em 11 de fevereiro de 1932, já passou por três sedes. A primeira delas ficava no coração do Centro de Florianópolis. O local escolhido para sediar as primeiras aulas da Faculdade era um prédio localizado na Rua Felipe Schmidt n. 2, que fazia esquina com a Praça XV de Novembro, mais precisamente no segundo pavimento. Naquele local alugado, em 3 de maio de 1932, após sessão solene de instalação do ano letivo, iniciaram-se as primeiras aulas da Faculdade de Direito, com as disciplinas de Introdução à Ciência do Direito, ministrada pelo Professor Pedro de Moura Ferro, e Economia Política, ministrada pelo Professor Henrique da Silva Fontes.

Além destes, integravam o primeiro corpo docente: José Boiteux (Direito Administrativo), Tavares Sobrinho (Direito Civil), Sálvio Gonzaga (Direito Civil), Heráclito Ribeiro (Obrigações), Urbano Salles (Direito Penal), Gil Costa (Direito Internacional), Adalberto Ramos (Direito Judiciário Civil), Nereu Ramos (Direito Constitucional), Alfredo von Trompowski (Direito Judiciário Civil), Affonso Wanderley Júnior (Direito Comercial) e Edmundo Moreira.

Em pleno funcionamento, o Professor José Boiteux, grande idealizador da Faculdade, sentiu a necessidade de colocar uma placa na fachada do prédio, identificando a novel escola jurídica. O Professor Othon da Gama Lobo D’Eça, então, comprometeu-se a custeá-la e, assim, fizeram encomendar uma vistosa placa com os dizeres “Faculdade de Direito”. A placa, com suas letras vistosas, foi colocada na fachada do prédio e não demorou para surgirem brincadeiras a respeito. Os senhores que, diariamente, tomavam café e comentavam o cotidiano ilhéu na Confeitaria do Chiquinho, logo ao lado da Faculdade, trataram de criar uma anedota para a placa. Segundo a história criada, um velho escrivão míope dobrava a esquina da Rua Felipe Schmidt com a Praça XV quando avistou a placa e começou soletrar pausadamente o que nela estaria escrito: “Alfaiataria do Didico”. O velho teria, então, exclamado em alto e bom som “até que enfim o Didico arranjou uma casa para sua alfaiataria!” – Didico era um alfaiate da cidade naqueles tempos. Assim, a Faculdade de Direito passou a ser alcunhada como “Alfaiataria do Didico” ou, apenas, “Didico”. Ressignificando o apelido depreciativo, os   estudantes criaram o verbo “Didicar-se”, como sinônimo de “estar matriculado na Faculdade de Direito”.

Pela cidade e pelas comarcas do interior do Estado, muitos juristas zombavam da incipiente Faculdade de Direito. Diziam que a “Alfaiataria do Didico” não duraria muitos anos. Hoje, a Faculdade de Direito da UFSC, com seus mais de 89 anos caminha para seu Centenário e está consolidada como um dos um dos melhores cursos jurídicos do país.

Referências:

BARBOSA, Renato. Cofre aberto… reminiscências da faculdade de direito e outros assuntos. Florianópolis: Imprensa Universitária da UFSC, 1982, p. 26.

FONTES, Henrique da Silva. A Faculdade de Direito de Santa Catarina e seus primeiros tempos. In: Revista de Cultura, Rio de Janeiro, n. 264, dez. 2007, s/p.

SARTOTI, Rodrigo A. Juristas e ditadura: repressão e resistência na Faculdade de Direito da UFSC. Florianópolis: Insular, 2019.

[1] Vide: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/183431

[2] O livro pode ser adquirido na Livraria Livros e Livros do campus da UFSC ou pelo site da Editora Insular: https://insular.com.br/produto/juristas-e-ditadura-repressao-e-resistencia-na-faculdade-de-direito-da-ufsc/

[3] Vide: https://www.instagram.com/memoriadireitoufsc/

[4] Vide: https://www.facebook.com/memoriadireitoufsc

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