O Sino da Conciliação.
Por Valter Túlio Amado Ribeiro – Juiz do Trabalho da 12ª Região e Membro Efetivo do IASC.
Há momentos na vida em que somos chamados a decidir se desejamos apenas ocupar um cargo ou deixar uma marca.
Quando tomei posse na Magistratura do Trabalho, em 12 de dezembro de 1994, eu ainda era um jovem juiz. Trazia a serenidade da juventude, a coragem dos que acreditam que o impossível pode ser vencido e uma convicção que jamais me abandonou: a Justiça existe para servir às pessoas, e não para aprisioná-las em intermináveis filas de espera.
Durante muitos anos percorri o interior de Santa Catarina.
Aprendi mais ouvindo agricultores, comerciários, pescadores, empresários e operários do que lendo qualquer tratado de administração judiciária.
No interior compreendi que o processo não era um número.
Era o salário que faltava para comprar alimentos.
Era a indenização que pagaria uma cirurgia.
Era a empresa que precisava sobreviver.
Era uma família inteira aguardando uma resposta do Estado.
Essa visão mudaria completamente minha forma de administrar uma Vara do Trabalho.
O desafio
Anos depois, minha esposa fez uma sugestão que modificaria definitivamente minha carreira.
— Por que você não pede remoção para Florianópolis?
Confesso que hesitei.
Eu conhecia a fama da 2ª Vara do Trabalho.
Era considerada uma das unidades mais congestionadas do Tribunal.
Havia processos aguardando audiência por cerca de dois anos.
Dois anos.
Na Justiça do Trabalho.
Para quem vive de salário, dois anos representam uma eternidade.
Aceitei o desafio.
No primeiro dia em que atravessei aquelas portas, percebi que não bastava trabalhar mais.
Era preciso trabalhar diferente.
A revolução silenciosa
Passei semanas estudando a rotina da Vara.
Não procurei culpados.
Procurei soluções.
Reuni servidores, diretores e colaboradores.
Disse-lhes:
— Nós não vamos aceitar que um trabalhador espere anos para ser ouvido. Se o problema foi criado por pessoas, pessoas também podem resolvê-lo.
Ninguém reclamou.
Ao contrário.
A equipe inteira acreditou.
Nascia ali aquilo que mais tarde passaria a ser conhecido internamente como a Vara Alpha.
Alpha.
A primeira letra do alfabeto grego.
Símbolo do início.
Da liderança.
Da excelência.
Mas aquele nome significava algo ainda maior.
Representava uma mudança de mentalidade.
Não existiam mais “meus processos” ou “seus processos”.
Existia uma missão coletiva.
Os servidores passaram a vestir, literalmente e emocionalmente, a camisa daquele projeto.
Cada audiência concluída era comemorada.
Cada pauta reduzida era motivo de orgulho.
Ninguém trabalhava pensando em produtividade.
Todos trabalhavam pensando nas pessoas que aguardavam do lado de fora.
O método
Começamos a reorganizar completamente o funcionamento da Vara.
Sempre que possível, conduzia duas e, em determinados períodos, até três audiências simultaneamente.
Enquanto uma era reduzida a termo, outra encontrava-se em fase de negociação e uma terceira já estava pronta para iniciar.
Não havia improviso.
Havia método.
Planejamento.
Compromisso.
A máquina judiciária começou a ganhar velocidade.
Em poucos meses aconteceu aquilo que muitos consideravam impossível.
A pauta, que antes alcançava aproximadamente dois anos, passou para cerca de trinta dias.
O trabalhador já não precisava esperar uma eternidade.
O empregador também encontrava resposta rápida.
A Justiça recuperava sua razão de existir.
Um novo desafio
Os resultados chamaram a atenção da Administração.
Recebi um convite.
Queriam que eu levasse aquela experiência para todo o Fórum Trabalhista de Florianópolis.
Lembro-me de caminhar sozinho pelos corredores naquela tarde.
Fiz uma pergunta silenciosa a mim mesmo.
“O que vou ganhar assumindo também o trabalho das outras Varas?”
A resposta veio imediatamente.
“Nada.”
Nenhuma gratificação.
Nenhum cargo.
Nenhuma promoção.
Mas ganhariam milhares de trabalhadores.
Ganharam empresas.
Ganharia a própria Justiça.
Aceitei.
Nasce o Centro de Conciliação
Com apoio institucional, implantamos no terceiro andar do Fórum o Centro de Conciliação.
Era um ambiente completamente diferente do modelo tradicional.
Dez mesas redondas.
Nada de barreiras.
Nada de distância entre juiz e jurisdicionado.
Ali todos se sentavam frente a frente.
Como pessoas.
Não como adversários.
Em cada tarde aproximadamente quatrocentas pessoas circulavam pelo Centro.
Dez audiências aconteciam simultaneamente.
O ambiente fervilhava.
Advogados conversavam.
Empregadores faziam propostas.
Trabalhadores finalmente eram ouvidos.
A Justiça deixava de parecer um tribunal.
Parecia uma grande oficina de construção da paz.
O sino
Foi então que surgiu uma ideia aparentemente simples.
Mas que mudaria tudo.
Mandei instalar um sino.
Toda vez que uma mesa alcançava um acordo…
Alguém tocava o sino.
No início alguns estranharam.
Depois…
Todos passaram a esperar por aquele som.
Cada badalada representava um conflito encerrado.
Uma família respirando aliviada.
Uma empresa reorganizando sua vida.
Uma sentença que jamais precisaria ser escrita.
O sino tornou-se a alma daquele Centro.
Seu som atravessava corredores, gabinetes e salas.
Era impossível ouvi-lo sem sorrir.
O país ouviu o sino
O que começou como um gesto simbólico rapidamente ultrapassou os limites do Fórum.
Os jornais catarinenses passaram a publicar reportagens sobre aquela experiência.
Depois vieram revistas especializadas.
Em seguida, a imprensa nacional.
O sino da conciliação transformou-se em notícia.
Equipes de televisão visitaram Florianópolis para compreender como uma unidade que carregava uma das maiores pautas do Estado havia se tornado referência nacional.
Grandes emissoras, entre elas a Rede Globo, mostraram ao país aquele ambiente incomum em que o som de um sino anunciava não uma cerimônia religiosa, mas a celebração da paz construída pelo diálogo.
Naquele momento compreendi que boas ideias não pertencem a quem as cria.
Pertencem à sociedade.
Os números
Os resultados impressionavam.
Entre 68% e 75% dos processos encaminhados pelas demais Varas terminavam em acordo.
De cada cem processos recebidos, aproximadamente setenta eram definitivamente solucionados.
Apenas o restante retornava às Varas de origem.
Milhares de sentenças deixavam de ser necessárias.
Milhares de recursos deixavam de existir.
Milhares de pessoas voltavam para casa com seus conflitos resolvidos.
Os troféus
Sempre acreditei que ninguém transforma uma instituição sozinho.
Por isso instituí uma tradição.
A cada mil processos solucionados, entregávamos um troféu à equipe.
Não era uma competição.
Era reconhecimento.
Cada servidor precisava sentir que era protagonista daquela transformação.
Nenhuma gestão se sustenta apenas por ordens.
As pessoas precisam acreditar que fazem parte de algo maior.
A resistência
Naturalmente, nem todos compreenderam aquela mudança.
Recordo-me de uma ocasião em que uma desembargadora, em tom pouco acolhedor, perguntou:
— O que um juiz do interior veio fazer na Capital?
Respirei fundo.
Respondi respeitosamente:
— Excelência, hoje recebi do gabinete de Vossa Excelência doze processos para tentativa de conciliação. Onze deles foram solucionados nesta tarde. Talvez seja exatamente isso que eu tenha vindo fazer: mostrar que Florianópolis também pode conciliar.
Não havia arrogância.
Havia convicção.
A convicção de que resultados são o argumento mais elegante.
O preço
Curiosamente, nunca recebi qualquer vantagem financeira por aquele trabalho.
Quando anos depois foi criada uma gratificação específica para atividades daquela natureza, fiquei fora do próprio Centro que ajudei a idealizar.
Confesso que aquilo causou alguma tristeza.
Mas nunca arrependimento.
Porque o verdadeiro patrimônio que construí não podia ser pago em dinheiro.
Ele estava nos milhares de acordos celebrados.
Nos trabalhadores que receberam seus créditos.
Nos empresários que voltaram a produzir.
Nos servidores que descobriram orgulho no serviço público.
A verdadeira herança
Hoje, ao recordar essa caminhada, percebo que meu maior legado não foi uma sentença histórica nem um cargo importante.
Foi ajudar a demonstrar que a Justiça pode ser eficiente sem perder a sensibilidade.
Que liderança não se exerce pela autoridade, mas pelo exemplo.
Que uma equipe motivada pode transformar a pior unidade judiciária em referência nacional.
E sempre que alguém me pergunta qual foi o momento mais feliz da minha carreira, não penso em homenagens, títulos ou solenidades.
Fecho os olhos.
Ouço novamente aquele sino ecoando pelos corredores do Fórum.
Porque, a cada badalada, não era apenas um processo que terminava.
Era a esperança que voltava a bater à porta de quem acreditava na Justiça.
E compreendo, com a serenidade que apenas o tempo oferece, que o verdadeiro juiz não é aquele que apenas decide conflitos.
É aquele que consegue evitá-los.
Essa, talvez, tenha sido a maior lição que a magistratura me ensinou.






