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Habermas e Morin: o fim tardio do século XX.

Por Julio Cesar Marcellino Jr.* – Membro efetivo do IASC.

Em menos de três meses, o mundo perdeu dois dos maiores nomes do pensamento contemporâneo. Jürgen Habermas, filósofo alemão, morreu em março, aos 96 anos. Edgar Morin, sociólogo francês, nos deixou em maio, aos 104 anos. Com eles, encerra-se simbolicamente a era do pensamento forjado ao longo do século XX e que respaldou o debate público em temas como humanidade, conhecimento e linguagem.

Os dois percorreram caminhos distintos, mas acreditavam no potencial da racionalidade como instrumento estruturante das relações sociais. Foram influentes em áreas como filosofia, educação, sociologia, ciência política e direito. Ambos carregavam, além das ideias, uma biografia marcada pela resistência. Morin foi para o combate contra a ocupação nazista da França com apenas 21 anos. Habermas, décadas depois, enfrentou tentativas de historiadores de relativizar os crimes cometidos na segunda guerra mundial.

Nascido em Düsseldorf em 1929, Habermas focou seus estudos em linguagem, racionalidade e na concepção de esfera pública. A obra que define seu legado é a teoria da ação comunicativa, na qual defende que a razão não serve apenas ao controle técnico da natureza; a razão teria um potencial emancipatório quando usada no diálogo entre pessoas livres e iguais. Em sua visão, conflitos podem e devem ser resolvidos pelo debate racional, pela persuasão e nunca pela força. Ele acreditava na construção de consensos dentro do Estado de Direito, baseados no entendimento mútuo.

O pensador alemão não via os ideais iluministas como um projeto fracassado, mas como um projeto inacabado que precisava ser aprimorado. Defendeu com convicção a democracia deliberativa, a integração europeia e o diálogo como antídoto ao autoritarismo. Seus críticos, sobretudo existencialistas e pós-estruturalistas, argumentam que seu modelo parte de premissas abstratas, que ignoram a subjetividade, as emoções e os aspectos irracionais que fazem parte da psiquê humana. A vida real, dizem eles, raramente segue o roteiro do debate racional ideal.

Edgar Morin partiu de uma perspectiva diferente. Também acreditava na razão, mas foi um crítico severo da visão cartesiana que divide o conhecimento em especialidades estanques. Para ele, essa fragmentação impede que enxerguemos as conexões essenciais entre os fenômenos. Sua resposta foi o que chamou de pensamento complexo (do latim complexus, entrelaçado). Pensar com complexidade significa o oposto de simplificar: é enxergar relações, contextos e contradições que compõem qualquer situação real.

Morin defendia que nenhum fenômeno ocorre isoladamente e que a realidade é, por natureza, multidimensional e imprevisível. Criticava tanto o erro e a ilusão quanto o excesso de especialização técnica. A lógica da eficiência econômica foi alvo frequente dessa crítica. Também encontrou opositores: foi acusado de subjetividade excessiva e de utilizar conceitos científicos sem o rigor metodológico. Mas sua influência, especialmente no campo da educação e do pensamento sistêmico, é inegável.

Habermas e Morin levam consigo um modo próprio de enxergar o mundo e as relações humanas. Tiveram o desafio de construir seus legados intelectuais ao longo de um século marcado por ideologias totalizantes, pela barbárie de duas guerras mundiais, pela globalização financeira e pelo surgimento da computação e da internet. Se despedem de um mundo muito mais ruidoso, intolerante e complexo. Ainda em atividade, no final de suas vidas, tiveram tempo de nos alertar sobre a inteligência artificial e os riscos implicados à racionalidade, ao debate público e às instituições democráticas.

 

* Doutor em Direito, professor e advogado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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