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E ninguém disse nada…

Por Gilberto Lopes Teixeira – Membro Efetivo do IASC e Advogado.

Um dia, o STF negou a alguém o acesso aos autos.
Como os autos não eram meus, não disse nada.

Depois, negou a outro o direito à sustentação oral.
Como não era a minha sustentação, não disse nada.

Mais tarde, disseram que o Regimento Interno poderia prevalecer sobre a lei.
Como naquele processo a lei não me protegia diretamente, não disse nada.

Então, abriram inquéritos de ofício, investigaram, acusaram e alcançaram pessoas que eu sequer conhecia.
Como não estavam investigando a mim, não disse nada.

Depois vieram prisões e julgamentos.
Questionou-se a individualização das condutas, discutiram-se os limites do juiz natural, da ampla defesa e do contraditório.
Como eu não estava no banco dos réus, não disse nada.

A censura passou a receber outros nomes.
Vozes foram silenciadas, conteúdos retirados e a liberdade de expressão passou a depender de fronteiras cada vez mais estreitas.
Como ainda podia falar, não disse nada.

Depois alcançaram jornalistas, veículos e manifestações da imprensa.
Como eu ainda conseguia escrever, não disse nada.

Até que, um dia, vieram por mim.

Olhei ao redor procurando quem defendesse minhas prerrogativas,
quem invocasse a Constituição,
quem exigisse o devido processo legal,
quem erguesse a voz em defesa das liberdades.

Mas já não havia voz alguma.

Todos haviam aprendido, pouco a pouco,
que era mais confortável permanecer em silêncio
enquanto a arbitrariedade atingisse apenas o outro.

Em breve poderão vir por nós.
E talvez, então, seja tarde demais para perguntar
por que ninguém disse nada.

O silêncio diante da violação da liberdade alheia não é neutralidade.
É o precedente que poderá legitimar a violação da nossa própria liberdade.

E ninguém disse nada.

 

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