Casamento na Igreja Católica: Quando o “sim” nunca existiu de fato.
Por José Ernesto Manzi* – Desembargador do Trabalho – Presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região (Santa Catarina).
Quando o “sim” nunca existiu: o discernimento e a verdade sobre o casamento católico
Muitas crises conjugais que terminam em divórcio civil escondem uma realidade espiritual profunda: o casamento pode nunca ter existido de fato como um Sacramento diante de Deus. A pressa, a imaturidade, as dependências químicas ou familiares e o constrangimento social muitas vezes viciam o consentimento no altar, configurando o que o Direito Canônico chama de Grave Falta de Discrição de Juízo. Compreender o real sentido do namoro cristão e a diferença entre “anular” e “declarar a nulidade” é o primeiro passo para buscar a justiça e a cura eclesial. Essa é a forma mais comum de nulidade matrimonial canônica.
Descubra, neste artigo, como a verdade sobre o início da sua união pode libertar o seu futuro.
Um esclarecimento prévio. Não ou Mestre ou Doutor em Direito Canônico, apenas um leigo com conhecimento jurídico que presta alguma ajuda ao Tribunal Eclesiástico da minha Diocese e que tem relativa experiência na apreciação de processos de nulidade. Este não é um artigo teórico, apenas uma opinião prática.
O que é a “Falta de Discrição de Juízo”?
Não se trata de loucura. A falta de discrição de juízo acontece quando, no dia do casamento, uma ou ambas as partes não tinham a maturidade psicológica ou a liberdade interna necessárias para avaliar, entender e assumir os deveres essenciais do matrimônio.
A discrição de juízo não é apenas uma questão intelectual — é, antes de tudo, uma questão de maturidade emocional. Não basta “saber” o que é o casamento; é preciso ter equilíbrio interior suficiente para avaliar com liberdade e assumir, com responsabilidade, os deveres que dele decorrem. Pessoas emocionalmente imaturas frequentemente compreendem em teoria os compromissos do matrimônio, mas carecem da estabilidade afetiva necessária para julgá-los com isenção e para sustentá-los na prática. O medo da solidão, a baixa autoestima, a dependência afetiva excessiva do parceiro ou da aprovação familiar, e a dificuldade crônica em lidar com frustrações são sinais de uma estrutura emocional ainda não consolidada — e é justamente nessa fragilidade que o consentimento matrimonial pode ser viciado. Por isso, a Igreja não avalia apenas “o que a pessoa sabia” no dia do casamento, mas também “com que liberdade interior e estabilidade emocional ela foi capaz de decidir”. Maturidade, aqui, não significa ausência de inseguranças, mas a capacidade de reconhecê-las, lidar com elas e, ainda assim, fazer uma escolha livre, refletida e responsável.
Para a Igreja Católica, o consentimento exige que o casal queira e tenha condições de assumir os fins e propriedades da união: o bem dos cônjuges e a geração, acolhimento e educação dos filhos na fé católica. Quem vai ao altar sem ter essas duas realidades em mente, ou sem capacidade interna de cumpri-las, está construindo um matrimônio nulo.
Na prática, as falhas na preparação e na escolha do parceiro manifestam-se em armadilhas emocionais e estruturais graves:
- Incapacidade Grave vs. mera Dificuldade: A Igreja não exige a perfeição
Esta é a distinção mais importante que os casais precisam compreender: existe uma diferença abissal entre a incapacidade para casar e a dificuldade em viver o casamento. Apenas a incapacidade grave e preexistente ao altar gera a nulidade do matrimônio.
A Igreja Católica não espera casamentos perfeitos, nem cônjuges sem defeitos. O matrimônio cristão é, por definição, uma união entre dois pecadores. O que se espera não é a ausência de problemas, mas sim duas pessoas maduras o suficiente para coexistir com as suas imperfeições mútuas, dispostas a perdoar e a construir juntas um caminho diário de santidade para si e para os filhos.
Ter defeitos, enfrentar crises financeiras, passar por fases de esfriamento afetivo ou discordar em algumas decisões são dificuldades normais da vida a dois. A incapacidade, por sua vez, ocorre quando um defeito de personalidade ou uma imaturidade é tão radical e profunda que anula a própria base do consentimento, tornando a pessoa estruturalmente cega ou impotente para cumprir os deveres mínimos do casamento desde o primeiro dia.
- A mentalidade “Pai de Pet” e a Exclusão dos Filhos
O matrimônio católico exige, por sua própria natureza, a abertura generosa à vida humana. Embora a exclusão intencional da prole configure outra causa específica de nulidade (a simulação por exclusão do bonum prolis), ela também brota, com frequência, de uma profunda falta de discrição de juízo e de imaturidade afetiva. É o caso de nubentes que entram no casamento já decididos a substituir os filhos por animais de estimação, ou que preferem preservar a própria liberdade — para viajar, dedicar-se exclusivamente à carreira ou simplesmente manter a comodidade de uma companhia de cama e mesa, sem os compromissos e renúncias que a paternidade exige. Quem deseja ser apenas “pai ou mãe de pet”, fechando-se à paternidade responsável e à missão de criar filhos na fé, demonstra uma incapacidade de prestar um consentimento matrimonial válido aos olhos da Igreja, pois rejeita, de saída, um dos pilares essenciais do próprio casamento.
- A superficialidade carnal dos namoros modernos
Atualmente, os relacionamentos tornaram-se cada vez mais imediatistas, rasos e focados na satisfação física e carnal. Muitos casais passam meses ou anos juntos sem nunca terem tido um diálogo profundo sobre valores, projetos e temperamentos. Essa pressa íntima gera uma forte ilusão de cumplicidade. Quando a novidade da atração física diminui após o altar, o casal descobre que divide o mesmo teto com um completo desconhecido, revelando que nunca houve conhecimento mútuo real na fase de preparação.
- A ilusão de que “ele(a) vai melhorar depois do casamento”
Um dos erros mais graves é ignorar os defeitos que irritam ou os desvios de caráter grave no namoro, alimentando a fantasia de que o casamento transformará a pessoa. O casamento atua como um amplificador da realidade. Se o parceiro é egoísta, infiel, imaturo, agressivo, irresponsável com dinheiro ou instável no namoro, essas características irão piorar com as responsabilidades e a rotina do lar. Casar-se esperando a conversão mágica do outro demonstra incapacidade grave de avaliar a realidade concreta.
- Sinais de alerta: infidelidade, drogas, bebidas e instabilidade no emprego
O uso de drogas (mesmo as consideradas “leves”), o consumo descontrolado de bebidas alcoólicas e a instabilidade crônica no emprego (aquela pessoa que não para em nenhum trabalho por preguiça, soberba ou falta de compromisso) não são meras fases ou dificuldades passageiras. Uma pessoa assim não será um bom cônjuge e muito menos um pai ou mãe exemplar.
Quando arraigados, são fortes indícios de uma incapacidade estrutural de sustentar as responsabilidades materiais e emocionais de uma família. Casar-se com alguém que demonstra esse padrão de fuga da realidade coloca em risco a própria subsistência do lar e a segurança dos filhos. Também quem é infiel no namoro ou no noivado, abriu uma porta larga para não cumprir o dever de fidelidade e unicidade matrimoniais.
- O perigo da interferência e do isolamento familiar
O matrimônio exige que a nova família se comporte de forma autônoma. No entanto, existem dois perigos opostos que destroem essa estrutura:
- Invasão de terceiros: Quando o cônjuge é imaturo e permite a influência destrutiva dos pais ou dos sogros nas decisões do novo lar.
- O isolamento forçado: Ocorre quando um dos parceiros detesta ou desrespeita a família do outro, passando a impor escolhas impossíveis no futuro (como as chantagens do tipo “ou eles, ou eu”). Essa postura possessiva e imatura costuma se desdobrar em um erro grave de caráter: tentar impedir que o filho ou a filha ampare e cuide dos próprios pais na velhice, quebrando o dever de solidariedade familiar e humana.
- O egoísmo romântico: casar “para ser feliz”
Quem se casa apenas para ser feliz, e não para fazer o outro feliz, está fadado ao insucesso. O amor conjugal autêntico é oblativo — ele exige a disposição ao sacrifício mútuo em vista do bem do cônjuge. Quando ambos entram na relação buscando apenas extrair felicidade do parceiro, qualquer frustração, doença ou crise financeira é vista como motivo para abandonar o barco. Falta, nesse consentimento egoísta, a intenção real de assumir o matrimônio “na alegria e na tristeza”.
- Outras causas comuns nos Tribunais Eclesiásticos
- A armadilha dos namoros longos: Casar-se por inércia ou por constrangimento social e medo de romper após muitos anos juntos, mesmo sabendo que a relação já faliu.
- Casamento por revanche: Casar-se às pressas com um parceiro recente apenas para curar o orgulho ferido e provar algo a um antigo amor.
- O relógio biológico: Aceitar a “pessoa errada” pelo desespero e pressa de ter filhos antes que o tempo biológico se esgote.
- Vantagem financeira e status: Usar o matrimônio como um contrato comercial para alcançar ascensão profissional ou estabilidade financeira; confundir alguém que seria um bom sócio comercial ou profissional, com alguém para casar.
O tempo de preparação: o caminho dos juízos
Para a Igreja, o namoro não é um passatempo e nem um casamento experimental. O namoro cristão é um tempo de discernimento e teste de viabilidade, onde a inteligência e a vontade precisam amadurecer por meio de duas etapas fundamentais de julgamento:
O juízo Teórico-Prático (a fase do namoro)
É a análise da mente baseada na realidade. O namorado observa o outro e conclui de forma racional: “Esta pessoa possui as qualidades, o equilíbrio emocional e os valores necessários para buscar o meu bem e ser um bom pai/mãe para os meus filhos?”.
Para fazer esse julgamento com precisão, é indispensável tirar os olhos do próprio umbigo e observar como o futuro cônjuge trata as outras pessoas. O verdadeiro caráter se revela na forma como ele se comporta com os próprios pais, irmãos, amigos e, principalmente, com os seus “inimigos” ou prestadores de serviços (pessoas de quem ele não depende ou com quem tem divergências). Se há grosseria, desrespeito ou rancor com os outros, essa será a face que ele mostrará a você no casamento.
O juízo Prático-Prático (A fase do noivado e do consentimento)
É o julgamento que move a vontade para a decisão final: “Aqui e agora, com todas as renúncias que o casamento exige, eu escolho livremente me doar a esta pessoa para sempre“. Na falta de discrição de juízo, este julgamento é corrompido: a razão aponta que o casamento é inviável (juízo teórico), mas a vontade cede à pressão do constrangimento, do dinheiro, do sexo ou do medo da solidão (viciando o juízo prático).
Sinais de alerta: evoluir ou terminar?
Sinais para EVOLUIR (Para o Noivado ou Matrimônio):
- Juízos alinhados: A certeza racional (teórica) e a decisão interior (prática) caminham juntas e em paz.
- Abertura aos fins do matrimônio: Ambos partilham do desejo real de construir um lar focado no bem do outro e no acolhimento generoso dos filhos, sem reduzi-lo a metas puramente materiais ou egoístas.
- Acolhimento da família: O parceiro respeita a sua história e a sua família de origem, entendendo que amar você inclui honrar e respeitar os seus pais.
- Maturidade e responsabilidade: O parceiro demonstra estabilidade profissional e pessoal, autocontrole e hábitos saudáveis, provando estar pronto para sustentar um compromisso.
- Valores e afinidades: compartilhamos interesses comuns, temos equilíbrio cultural e de formação ou, se não temos, isso não tem importância alguma.
- Casamento e santidade: partilhamos os mesmos valores de moral e religião e lembramos que prometeremos criar nossos filhos na fé católica.
- Respeito e valorização como pessoa: damos valor recíproco ao que cada um sonha, pensa e acredita.
Sinais para TERMINAR a Relação:
- Fugas da realidade e vícios: Dependência ou uso recorrente de substâncias (bebidas em excesso, entorpecentes mesmo que “leves”) e incapacidade de se manter em um emprego.
- Mentalidade fechada à vida: O parceiro deixa claro que não quer assumir a responsabilidade e os sacrifícios de gerar e educar filhos humanos, priorizando a comodidade pessoal ou o apego exclusivo a animais, por exemplo.
- Relacionamento “mudo”: Muita intimidade física e carnal, mas nenhuma conversa profunda sobre o futuro, dinheiro, fé ou educação de filhos (namoro e noivado visam descobrir como será a vida matrimonial com uma pessoa determinada). O primeiro sinal de que um relacionamento está fracassando é a mudez.
- Aviso de ditadura afetiva: Sinais de que o parceiro tentará afastar você dos seus amigos e familiares, ou de que criará conflitos para impedir o amparo aos seus pais no futuro.
- Espera por mudanças milagrosas: Insistir na relação tolerando falhas graves de caráter sob a falsa esperança de que ele mudará após casar.
Teste de Reflexão: Como está o seu relacionamento hoje?
Se você está namorando ou noivando, faça estas perguntas honestas a si mesmo:
- Dificuldade ou Incapacidade: Eu vejo no meu parceiro defeitos que exigirão paciência e perdão (dificuldades normais) ou traços de caráter e vícios que tornam a convivência destruidora e inviável (incapacidade)?
- Valores e Filhos: Nós dois estamos casando com o coração aberto para receber os filhos que Deus enviar e educá-los na fé católica, ou estamos enxergando o lar apenas como um espaço de conveniência individual?
- Conhecimento: Se proibíssemos o contato físico no nosso namoro por um mês, nós ainda teríamos assunto, diálogo e interesse mútuo em descobrir quem o outro é por dentro?
- Responsabilidade: O estilo de vida do meu parceiro (comportamento com bebidas, festas, substâncias ou a forma como lida com o trabalho) transmite a segurança de um adulto responsável ou a instabilidade de um adolescente eterno?
- Observação: Como o meu parceiro reage quando é contrariado, quando está estressado ou quando trata pessoas que estão em posições inferiores a ele? Eu aceito essa postura para o resto da vida?
- Equilíbrio: O meu parceiro respeita a minha família e me dá liberdade para ampará-los, ou ele já demonstra sinais de que tentará me isolar deles?
- Mudança: Eu aceito o meu parceiro exatamente como ele é hoje, ou estou me casando com a expectativa ilusória de que ele se transformará depois do altar?
Esclarecimento Importante: A Igreja não “Anula” Matrimônios
- A Igreja não dissolve matrtimônios válidos: Se um matrimônio foi celebrado de forma válida, ele é indissolúvel. Nem o Papa pode desfazê-lo.
- A Igreja reconhece a nulidade: O Tribunal Eclesiástico faz uma investigação histórica para descobrir se, no momento do altar, o casamento realmente existiu ou se foi apenas uma aparência de união. A Igreja apenas declara a nulidade (reconhece que o Sacramento nunca chegou a se formar por falhas graves de consentimento).
Justiça, misericórdia e os mitos comuns do processo
Ao buscar o Tribunal Eclesiástico, muitas pessoas são travadas por dúvidas morais e medos infundados que precisam ser esclarecidos:
Preciso da concordância ou assinatura do meu ex-cônjuge?
Este é um dos maiores mitos que impedem as pessoas de buscar a justiça da Igreja. Não é necessária a anuência da outra parte para dar início ao processo de nulidade. Qualquer um dos cônjuges tem o direito legítimo de apresentar o seu caso ao Tribunal de forma unilateral.
Quando o processo começa, a outra parte é devidamente notificada e convidada a participar, dar o seu depoimento e apresentar suas testemunhas. No entanto, se ela se recusar a participar ou ignorar as notificações, o processo continuará normalmente. A revelia ou a ausência do ex-cônjuge não impede que o Tribunal investigue os fatos, colha outras provas e profira a sentença final.
Como ficam os filhos?
A declaração de nulidade do casamento não afeta em nada a situação dos filhos. Perante a Igreja e a lei, eles continuam totalmente legítimos (Cânone 1137). A nulidade diz respeito apenas ao vínculo espiritual entre os adultos no dia do casamento. O amor, o cuidado e as responsabilidades de pais permanecem idênticos.
O mito do “culpado” e o egoísmo processual
O processo busca a verdade, não a condenação penal de ninguém. No entanto, há uma armadilha psicológica comum: o cônjuge que causou a nulidade (por sua imaturidade ou dependência, por exemplo) acha que não seria justo cooperar com o processo, pois sente que estaria se “beneficiando” do próprio erro ao receber a liberdade para casar de novo.
Esse pensamento é um equívoco perigoso. Ao se recusar a participar ou ao tentar bloquear o andamento das investigações, essa pessoa não está fazendo justiça; ela está punindo a parte inocente. Impedir o reconhecimento da nulidade condena o outro cônjuge — que entrou de boa-fé e sofreu as consequências da união inviável — a viver privado dos sacramentos ou da chance de reconstruir sua vida familiar de forma válida na Igreja. A verdade liberta a ambos.
Não tenho dinheiro para advogado ou para o processo
Outro mito que afasta muitas pessoas da justiça da Igreja é o medo dos custos. No Processo Canônico, como regra, a parte não precisa de advogado: ela mesma pode apresentar o seu libelo e acompanhar o processo (alguns Tribunais, inclusive, permitem que a parte seja assistida por um advogado ou procurador, se assim preferir). Isso não é um detalhe burocrático sem importância: o Direito Matrimonial Canônico tem lógica, linguagem e finalidade próprias, bem diferentes do Direito de Família civil. Muitos advogados civilistas, ainda que excelentes em sua área, não tiveram formação específica em Direito Canônico e, ao aconselhar a parte com a mentalidade de um litígio civil, terminam enxergando contendas que não existem no processo eclesiástico. O resultado costuma ser petições longas, incidentes desnecessários e um atraso considerável naquilo que poderia tramitar de forma simples e relativamente rápida. O ideal, portanto, é buscar orientação diretamente com a Pastoral Judiciária ou com o próprio Tribunal Eclesiástico, que existem justamente para acolher e orientar a parte sem custos e sem complicações.
Quanto às despesas processuais propriamente ditas — como as taxas de tramitação —, a Igreja também prevê um caminho de misericórdia para quem não tem condições de pagá-las. Comprovada a real impossibilidade financeira, o Vigário Judicial pode dispensar a parte do pagamento das custas, total ou parcialmente (cân. 1649, §1º, 5º, e legislação própria de cada Tribunal). Basta, em regra, apresentar um pedido simples de gratuidade ao próprio Tribunal, explicando a situação econômica. A justiça da Igreja não pode ficar reservada a quem tem recursos: a verdade sobre o vínculo matrimonial é um direito de todo fiel, independentemente de sua condição financeira.
Se você deseja avaliar se a sua história possui elementos para um processo eclesiástico, procure a Pastoral Judiciária ou o Tribunal Eclesiástico da sua Diocese para uma orientação personalizada. Converse primeiro com o seu pároco.
Lembre-se que, o matrimônio é um sacramento e que, casar na Igreja não é apenas um ato formal ou uma festa, tendo consequências profundas e definitivas.
TESTE PARA AJUDAR A MEDITAR SOBRE O RELACIONAMENTO
Teste do “sim” de verdade: estamos prontos para o altar?
Este teste não é para dar uma nota ao amor de vocês, mas para ajudar a perceber se vocês estão decidindo casar com a razão ou se estão apenas sendo levados pela “onda” do momento, pela paixão, pela atração física ou intelectual ou outra causa externa e passageira (beleza passa, não esqueçam). A ideia é usar jeitos diferentes de lembrar da história de vocês para que nada de importante passe despercebido.
- O Jeito que tudo começou (olhando para o passado)
Técnica: Reconstruir o momento para saber se a vontade é livre.
- A pergunta: Pense no dia em que vocês decidiram casar. Foi uma escolha feita com calma, porque vocês se amam e querem construir uma vida? Ou foi porque apareceu um “problema” (como uma gravidez, pressão da família, medo de ficar sozinho ou porque “já faz muito tempo que namoramos”)?
- Para pensar: Se o casamento parece mais uma “saída de emergência” do que um plano de vida, parem um pouco. O “sim” deve ser livre, sem nenhum susto empurrando vocês.
- Quem é essa pessoa de verdade? (sem filtros)
Técnica: Relato livre para separar a realidade do sonho.
- A pergunta: Esqueça os elogios das redes sociais e as fotos bonitas. Se você tivesse que descrever seu noivo(a) para alguém, você consegue listar três defeitos reais dele(a) que te incomodam? Você aceita viver com esses defeitos para sempre?
- Para pensar: Quem casa com um “príncipe encantado” ou uma “princesa de filme” acaba se decepcionando. O casamento é com uma pessoa de carne e osso, que erra e tem manias.
- Contando a história de trás para frente
Técnica: Ordem inversa para descobrir o que a memória esconde.
- A pergunta: Façam um exercício: contem a história do namoro começando de hoje e voltando até o primeiro dia em que se viram. Ao fazer esse caminho “ao contrário”, você percebeu alguma mentira, alguma briga feia que fingiu que não aconteceu ou algum sinal de que o outro não é quem diz ser?
- Para pensar: Quando contamos a história na ordem normal, a gente tende a “enfeitar” os fatos. Contar de trás para frente ajuda a ver a realidade como ela foi, sem as desculpas que a gente costuma inventar.
- O teste do “só nós dois”
Técnica: Reduzir o ruído para ouvir o coração.
- A pergunta: Imagine que, por algum motivo, a festa de casamento fosse cancelada, não houvesse vestidos caros, fotos ou viagem de lua de mel. Se sobrasse apenas a vida comum em uma casa simples, você ainda teria vontade de casar com essa pessoa amanhã?
- Para pensar: Muitas vezes o casal se apaixona pelo “evento” do casamento e esquece que a festa dura um dia, mas a vida de casado é para sempre. Esse teste ajuda a saber se você ama a pessoa ou o “teatro” do casamento.
- Os erros que se repetem
Técnica: Identificar padrões de comportamento.
- A pergunta: Quando vocês brigam, o problema é sempre o mesmo? Ele(a) promete mudar, mas na semana seguinte faz tudo igual? Vocês conseguem resolver os problemas conversando ou um sempre tem que “engolir o sapo” para a briga acabar?
- Para pensar: O casamento não faz ninguém mudar por mágica. Se existem problemas graves agora (como vício em bebida, desonestidade ou falta de respeito), incompatibilidade de gênios etc., eles vão continuar depois do altar. Fiquem atentos aos sinais que se repetem.
Dica para os Noivos: O casamento é a decisão mais importante na vida do casal. Não há sucesso profissional, conquista financeira ou qualquer outro bem que compense viver um calvário dentro de casa. Um bom cônjuge é, antes de tudo, alguém que o faz crescer em todos os sentidos — a começar pelo espiritual, mas também no plano material e profissional, pois incentiva, apoia e rema na mesma direção dos seus projetos de vida, em vez de ser um peso ou um obstáculo a ser superado todos os dias.
O objetivo deste exercício não é dar uma nota ao relacionamento, mas ajudar vocês a construírem um casamento justo e feliz, baseado na verdade e não em ilusões. Por isso, antes de responder de cabeça, vale a pena colocar no papel, com calma e sem pressa, os prós e os contras que vocês identificam na relação. Escrever exige mais honestidade do que pensar: obriga a organizar as ideias, evita que a memória só guarde o que é bom e ajuda a enxergar com clareza se os pontos positivos realmente sustentam uma vida inteira, e se os negativos são dificuldades passageiras ou sinais de algo mais profundo. Se alguma das perguntas trouxer dúvidas, não tenham medo de encará-las: é sempre melhor conversar e resolver tudo agora — no tempo do namoro ou do noivado — do que descobrir mais tarde, já depois do altar, que o “sim” de vocês nunca existiu de verdade.
Um Pequeno Roteiro para o Exercício
Para tornar essa reflexão mais concreta, sugerimos o seguinte modelo, escrito à mão ou digitado, com calma:
- Liste de três a cinco pontos positivos do seu relacionamento — não elogios genéricos (“é gente boa”), mas qualidades concretas que sustentam uma vida inteira (ex.: “é honesto mesmo quando isso o prejudica”, “trata bem quem não pode lhe dar nada em troca”, “lida com frustração sem agressividade”).
- Liste de três a cinco pontos negativos — também de forma concreta, não vaga (ex.: “bebe excessivamente nas festas”, “já mentiu sobre dinheiro”, “tenta me afastar da minha família”, “despreza meu sucesso profissional ou meus gostos”).
- Para cada ponto negativo, pergunte-se: isso é uma dificuldade ou uma incapacidade?
- Dificuldade é o que exige paciência, diálogo e tempo, mas pode ser trabalhado a dois (ex.: desorganização, timidez, dificuldade de expressar sentimentos).
- Incapacidade é o que atinge a raiz da convivência e tende a se repetir e a se agravar com o tempo, mesmo após o casamento (ex.: dependência química, violência, desonestidade contumaz, recusa categórica aos filhos).
- Releia a lista depois de alguns dias, sem pressa, e pergunte-se: os pontos positivos resistem à prova do tempo e da rotina, ou dependem apenas da fase de encantamento do namoro? Os pontos negativos são dificuldades que aceito enfrentar a dois para sempre, ou são incapacidades que eu apenas espero, sem fundamento real, que desapareçam depois do altar?
- LEMBRE-SE: A santidade e a virtude não consistem em não ter defeitos, mas em buscar, dia após dia, dominá-los. Todo ser humano carrega fragilidades, inclinações desordenadas e quedas — isso faz parte da condição humana ferida pelo pecado original. O que distingue um bom cônjuge não é a ausência de falhas, mas o esforço sincero e constante em reconhecê-las, lutar contra elas e crescer a partir delas, com humildade e abertura à graça de Deus.
Por isso, ao avaliar o seu relacionamento, a pergunta certa não é “ele(a) é perfeito(a)?” — pergunta que nunca terá resposta positiva, em nenhum ser humano —, mas sim: “ele(a) reconhece os próprios defeitos, ou os nega e se justifica sempre? Ele(a) demonstra esforço real de melhorar, ou repete os mesmos erros sem nenhuma disposição de mudança? Ele(a) aceita ser corrigido(a) com amor, ou reage com orgulho e agressividade?”
Um parceiro que erra, mas se esforça, que cai, mas se levanta, e que aceita ser ajudado a crescer, é um sinal de maturidade e de fé viva. Já aquele que nunca admite culpa, que justifica todo comportamento destrutivo como “é assim que eu sou” e que não demonstra nenhum movimento interior de conversão, revela algo mais preocupante do que um simples defeito de caráter: revela, muitas vezes, uma incapacidade real de se doar e de crescer junto com o outro — o que é bem diferente da fragilidade comum a todo casal que decide caminhar, com paciência e fé, rumo à santidade conjugal, que consiste em buscar, dia-a-dia, não perder o céu, não deixar que cônjuge o perca e criar filhos para ele (o céu).
*José Ernesto Manzi: Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo – 1986), Bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí (Itajaí, SC, 2004), Especialista em Direito Administrativo (Universidade de Roma-1987/1988), em Processo Civil (Unoesc – Chapecó – SC) e Processos Constitucionais (Universidade de Castilla – La Mancha – Toledo, Espanha), Doutorando na Universidade de Castilla La Mancha, campus de Ciudad Real. É Juiz do Trabalho em Santa Catarina desde 1990; Foi alçado ao cargo de Desembargador em 13 de maio de 2011; Foi coordenador do Comitê de Segurança Institucional do TRT-SC de 2018 a 2021.





