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Roblox e o fim da era do consenso.

Por Julio Cesar Marcellino Jr.* – Membro Efetivo do IASC.

Recentemente a grande mídia noticiou sobre o inconformismo de jovens em relação às restrições impostas pela plataforma Roblox ao uso do chat de comunicação entre jogadores. Para quem desconhece, importante explicar que o Roblox é um sistema global de jogos online, bastante popular entre milhões de usuários, que proporciona uma experiência de entretenimento marcada por elevada interação e socialização. Tal característica é potencializada pela ferramenta de chat, por meio da qual os jogadores conversam, se relacionam e constroem simulações virtuais de forma colaborativa.

Durante muito tempo, contudo, a plataforma foi alvo de questionamentos quanto aos riscos à segurança de jogadores menores de idade. Por meio do chat, crianças estariam potencialmente expostas ao contato com adultos e a conteúdos inadequados. Não foram poucas as denúncias envolvendo possíveis situações de assédio, aliciamento sexual e cyberbullying. Considerando que o Roblox alcança milhões de usuários organizados em comunidades de compartilhamento de informações, o tema ganhou grande repercussão pública, gerando forte pressão social pela adoção de medidas de contenção e proteção dos menores.

Em resposta a esse cenário, o Roblox implementou recentemente uma série de medidas voltadas à segurança dos usuários, entre elas: (a) o bloqueio do uso do chat para menores de nove anos, com liberação condicionada à autorização dos pais; (b) a verificação obrigatória de idade para utilização do chat; (c) a segmentação dos usuários por faixa etária, permitindo interações apenas entre jogadores da mesma idade ou de idades próximas; (d) a proibição total de menores de 16 anos conversarem com adultos; e (e) o aprimoramento das ferramentas de controle parental.

Após a implementação dessas medidas, ocorreu um fato inusitado — e este é o principal objeto de análise do presente artigo: os usuários passaram a criar avatares e memes dentro dos jogos, exibindo cartazes em protesto simulado contra as restrições adotadas pela empresa. Pelos erros gramaticais presentes nas frases de efeito utilizadas, presume-se que tais manifestações tenham sido produzidas majoritariamente por crianças, o que agrava ainda mais a situação. O episódio chegou ao ponto de atingir o youtuber Felca, conhecido por denunciar a adultização de crianças nas redes sociais, que também foi alvo de ataques.

O protesto protagonizado pelos usuários revela um sintoma grave das dificuldades contemporâneas nas relações sociais impactadas pelas inovações tecnológicas. Esses jovens não optaram pelo diálogo ou pela tentativa de construção de consenso por meio de canais institucionais de comunicação com a empresa. Seria razoável supor que pudessem se organizar e formalizar suas insatisfações por e-mail ou mecanismos similares, buscando esclarecimentos ou revisões das medidas. Em vez disso, escolheram o confronto direto, o dissenso. Aqui, um sinal evidente de que a chamada “era do consenso”, predominante antes da ascensão das redes sociais, parece estar se esgotando.

Em perspectiva histórica, até o surgimento das redes sociais, a vida em sociedade era orientada por uma lógica de construção de consensos baseada no diálogo e em procedimentos deliberativos mediados por instituições. Esse modelo social tinha na consensualidade o fundamento da convivência coletiva, sendo um dos pilares da democracia liberal que prevaleceu desde o início do século XX. Ao longo desse período, a tomada de decisões era marcada por uma racionalidade intersubjetiva, com valorização da sociedade civil frente ao Estado, tendo o indivíduo como centro gravitacional das relações.

Desde o segundo pós-guerra, com a ascensão econômica e política dos Estados Unidos, observa-se a difusão global das ideias liberais. Conforme aponta o escritor Yuval Noah Harari, trata-se de algo próximo a uma crença ou dogma de fé: independentemente de comprovação empírica, consolidou-se a concepção de que a democracia liberal seria o modelo mais eficaz para promover prosperidade e bem-estar ao maior número possível de pessoas. E o caminho para o alcance desse bem-estar seria a tomada de decisões a partir de consensos.

Esse ambiente, naturalmente, influencia a visão de mundo e o comportamento das pessoas, incluindo crianças e jovens. Na percepção desses jovens, inseridos em um mundo cada vez mais conflitivo e menos tolerante, o espaço para o diálogo e para a construção de consensos torna-se progressivamente reduzido. O modelo potencializado pelas redes sociais acaba por comprimir a infância e a adolescência, tornando-as reféns de um processo contínuo de adultização. As plataformas digitais carecem de filtros eficazes para adequar conteúdos às diferentes faixas etárias, expondo crianças e adolescentes a materiais destinados ao público adulto, o que gera consequências significativas.

O episódio dos protestos contra as medidas adotadas pelo Roblox evidencia esse fenômeno de forma crua e direta. Além dos adultos, agora são também as crianças que passam a assimilar uma cultura marcada pela intolerância, pela intransigência e pela falta de empatia. Em tempos de inteligência artificial, a sensação é a de que algo essencial está se perdendo. Não se trata apenas da perda (muitas vezes romantizada) da inocência e da espontaneidade infantis, mas de um esvaziamento mais profundo, que atinge a própria humanidade.

* Doutor em Direito, professor e advogado.

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