Essa tal felicidade…
Por Gilberto Lopes Teixeira – Advogado e Membro Efetivo do IASC.
Dentre os inúmeros paradoxos da existência humana, talvez nenhum seja tão universal quanto a busca pela felicidade. Mas que felicidade é essa — tão desejada, tão prometida, tão vendida — que parece sempre escapar pelas frestas da vida cotidiana? No livro “O Sentido da Vida”, de Contardo Calligaris, encontra-se uma reflexão que desvia da rota comum e nos propõe um novo olhar: talvez a felicidade não deva ser um fim em si, tampouco um troféu reservado aos virtuosos ou aos estrategicamente disciplinados. Talvez ela não deva sequer ser um objetivo.
Calligaris, com sua prosa delicadamente profunda e existencialmente honesta, nos lembra que preferia viver uma vida interessante a uma vida feliz. A felicidade, dizia ele, sempre lhe pareceu uma preocupação desnecessária. Seu legado, na obra póstuma publicada pela editora Paidós, não reside em fórmulas de contentamento, mas em um convite sincero para abraçarmos a vida como ela é — concreta, imperfeita, finita.
Em trecho tocante da obra, quando narra as últimas palavras de seu pai, gravita-se em torno da sentença “faça alguma coisa” — frase que se transfigura, no olhar do autor, numa convocação à ação diante da dor, da iminência da morte, da própria vida. E ali, no limiar entre a lucidez e a rendição, Calligaris descobre que o sentido da vida é… a própria vida. A que se vive. E da qual faz parte também morrer.
Assim, a felicidade não é um objeto colhido em pomar de ilusões, tampouco é encontrada no imediatismo histérico das redes sociais ou na plenitude fabricada dos comerciais de margarina. Está nas coisas simples e silenciosas: em um banho matinal sem auxílio, em dormir sem a tutela de fármacos, na mesa posta com o necessário, na escuta atenta de um amigo verdadeiro, na prática da gratidão e na generosidade sem cálculo. Está, sobretudo, em viver com inteireza o agora — pois é tudo o que temos.
Não nos iludamos com promessas de felicidade perene. Ela não é um estado constante, mas uma visita discreta que se insinua nos detalhes, nas pausas, nos vínculos sinceros. Talvez, no fim, seja a gratidão — e não a felicidade — a expressão mais genuína da vida bem vivida.
E que sejamos, pois, mais atentos que exigentes. Que agradeçamos mais e reclamemos menos. Porque essa tal felicidade, se de fato existe, talvez habite nos instantes em que nos esquecemos de procurá-la.






